Já não tenho a graça que tinha!…

Autor: Professora Ana Ferreira

Sou professora não por natureza, mas por convicção. Infelizmente há uma diferença. Quem ensina tem a obrigação de achar uma verdade. Não é sorte nem acaso, nem feitiço ou jeito. É qualquer coisa que por muito enganada, eu continuei e que hoje me orgulho de continuar. Há muito tempo que não tenho a graça que tinha. Como quem foi à Feira Popular e perdeu a carteira, eu fui para o ensino e perdi a piada. Agora já não posso fazer nada. A partir do momento em que as pessoas começaram a falar de mim, algo na pureza com que eu falava delas, se prejudicou. É o instinto da retaliação, se lhe dermos rédeas livres. É difícil resistir ao automatismo da reação. Mas não é só por isso que a piada se perde. À medida que o sucesso se foi instalando, perdemos o instinto de espicaçá-lo. Mais tarde, até perdemos aquela pasta onde tínhamos a lista infinita de assuntos e de coisas urgentes que tínhamos para fazer. O nosso sentido de justiça é o mais pieguinhas do mundo. O aluno vence e o professor sofre. Sofre e não dá para fazer vida disso. Quem sou eu de mãos e pés atados perante tanta justificação, tanto documento, tanto decreto-lei… 

Com o tempo, a qualidade e o mérito dos alunos foi diminuindo. Chegou-se ao ponto de bater mais num ceguinho só porque se atribuiu nível 3. O ceguinho, desgraçado, prostrado na cadeira grita “Não batas mais!” E nós profissionais da educação dizemos: “Desculpa lá, é só mais um bocadinho”. Fica-se com saudades dos primeiros alunos, como se tratassem de primeiros amores. Fica-se com uma relação incómoda com eles. Um professor preocupa-se : “Como andará o Pedro Sousa hoje em dia?” “Será que a Marta Martins tem o suficiente para comer?” A verdade é que hoje não estou nem mais carinhosa, nem mais compreensiva, nem mais aberta, nem mais tolerante, nem mais disposta a aceitar que a vida nem sempre é o que nós esperamos. Estou apenas mais velha e mais cansada. Tenho menos paciência. Tenho menos esperança. Tenho menos tempo. Tenho mais que fazer. Se já não tenho piada, alguém há de ter por mim. Só acho injusto que os alunos percam o gosto pela leitura, que se vejam progressivamente destituídos do seu sentido de humor, que desistam de exigir no que leem um mínimo de interesse e qualidade. E , ainda, que não manifestem um mínimo de gratidão por quem sacrificou os melhores anos da sua vida só para lhes dar algo para entreter a vista enquanto comiam os cereais. Ninguém está a pedir que arranquem os olhos da cara e que fiquem à espera da edição Braille. Mas, em nome dos bons tempos que lhes proporcionei, daquele texto que leram há uns anos atrás, não percam tempo. Porque não vão ler outro livro? Consideram-se assim tão letrados que não haja pelo menos um milhão de livros que vos façam falta ler? 

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