Retomando tradições

Autor: Carlos Alexandre, 11.º Multimédia

Num tempo em que tantas raízes se perdem no esquecimento e na pressa dos dias modernos, ergue-se, ainda que humildemente, o testemunho de dois jovens que recusaram deixar morrer aquilo que outrora dava alma à sua terra.

Eu e outro jovem, com o apoio firme de familiares e amigos da família, tomámos sobre os nossos ombros a responsabilidade de recuperar uma tradição adormecida há mais de vinte anos: o repicar do sino no Sábado de Aleluia e a fogueira no recinto público, sinal vivo de renovação, fé e comunidade. Não foi apenas um gesto simbólico. Foi um ato de continuidade. Um regresso ao que sempre fomos. O som do sino voltou a ecoar pelas ruas como outrora e a fogueira, erguida com mãos de várias gerações, reacendeu mais do que brasas reavivou o espírito de união que parecia esquecido. E houve ainda um momento de particular significado, daqueles que não se escrevem apenas em palavras, mas que ficam gravados no peito de quem os vive. Homens que há mais de vinte anos não subiam ao campanário, homens feitos pela vida e pelo tempo, voltaram a subir naquele Sábado. Subiram com o peso dos anos, mas também com a leveza da saudade. E ali, entre cordas e badalos, reencontraram-se com a sua juventude, com risos antigos, com gestos que o corpo nunca esqueceu. Foi mais do que tocar foi reviver.

Por isso, há, neste gesto simples, uma lição maior. Recorda-nos de um tempo em que Portugal caminhava com rumo, onde a ordem, o respeito e a tradição eram pilares firmes da vida nacional. Um tempo em que se compreendia que a identidade de um povo não se improvisa, constrói-se e preserva-se. Tal como nesse período, onde se valorizava o que era nosso, também aqui se prova que, com vontade e sentido de dever, é possível restaurar o que parecia perdido. Recuperar esta tradição não é olhar para trás com saudade vazia. É, antes, afirmar que o passado tem valor, que a herança não deve ser descartada, e que cabe às novas gerações honrar aquilo que receberam. Porque um povo sem memória é um povo sem futuro e nós escolhemos lembrar, reconstruir e continuar.

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